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janeiro 10, 2012

Revisitando a mim mesmo

Poucas vezes não será estranho o sentimento que se tem ao ler um texto de autoria própria, escrito há tempo suficiente para que já seja um estranho aquele que em certo momento já fomos. Reler uma redação antiga é voltar, por um instante, a ser o que se era; pois algo do fomos está ali gravado; uma forma de pensar, escrever, mesmo de sentir está de tal forma exposta que podemos quase que ser aquele antigo “eu”. Há quem pense que quando se lê Shakespeare se é, em parte, o próprio Shakespeare – mas isso deixemos para eles que assim o pensam.

Lendo meus antigos textos pude relembrar justamente o que lia e o que me fazia escrever. Relembrei como faziam pensar as paisagens da Patagônia, como embaraços levemente tornavam-se em aventuras e como se desejava poder lhas estender. Sobretudo, ao interesse desse texto, relembrei de que lia Saramago. Fazia, há de se dizer, uma pequena maratona, tendo lido Ensaio Sobre a Cegueira logo após A Viagem do Elefante; e antes mesmo destes, não há muito tempo, havia lido O Homem Duplicado. Ficou-se evidente como o sol a anunciar o novo dia. As frases longas, entrecortadas, muitas vezes sobre assuntos pouco importantes para a “trama” em si. O pouco que fiz foi adaptar: as infinitas vírgulas foram forçadas a caber como dois-pontos, travessões e ponto-e-vírgulas. Em alguns momentos isso dificultou bastante a escrita e sacrificou a fluência do texto – ainda mais que tinha de escrever rápido os textos para que fossem um itinerário legítimo.

É curioso como se é tão influenciado pelo externo. Porque lia Saramago, passei a pensar, escrever, elaborar frases, passei a ser, em grau bastante humilde, Saramago. Se adaptei foi apenas a acalmar a consciência de não estar abertamente plagiando frases e ideias. De certa forma, tentei imitar o que seria o estilo de Saramago. E isso não me é novidade; tampouco imagino que seja a outros. Na época em que lia seus livros, como disse, pensava como escrevia Saramago. O banal ganhava nova forma e mesmo textos simples tornavam-se alvo das peripécias de um estilo solto e elaborado.

É seguro dizer que toda pessoa, ou ao menos toda pessoa que escreve – de forma amadora -, é escrava de algum grande escritor. Por alguns meses todo texto que caísse em minhas mãos se tornaria num plágio infeliz do estilo saramaguês; assim como nos meses seguintes seriam dominados por Flaubert e os seguintes por Henry James. A questão essencial do estilo é que ele tem propósito; isto é, a forma como se apresenta o que antes não existia serve às intenções do autor. O narrador de Flaubert não era gratuitamente frio e indolente – havia um porquê de assim o ser. O texto bem elaborado não se apresenta de forma inocente; a colocação das palavras ou o desleixo sintático, tudo tem uma razão de ser – são essenciais a transmitir as ideias do autor.

janeiro 3, 2012

Quantificação

Acompanhar o progresso de leituras foi sempre tarefa ardilosa. É preciso muito mais do que contar o número de livros ou mesmo o de páginas lidas. Diferentes fontes, tamanhos de páginas e, sobretudo, de qualidade de leitura fazem da quantificação do progresso de leituras um desafio. Por mais que pense não chego a conclusão satisfatória: se leio pouco, mas bem, sinto que li insuficiente; de certa forma, é difícil desprender-se de imediato da necessidade de apresentar números grandes ao final de certo período de tempo. É como a vida acadêmica, que se preocupa com números e letras finais e não com o aprendizado.

Talvez seja algo tanto mais social do que próprio – de mim – estas questões. Chegar ao final das férias tendo lido dezesseis livros seria revigorante em dois sentidos. Primeiro seria auto-reforçador, após um péssimo segundo semestre de 2011. Em segundo lugar, amansaria alguma necessidade de provar algo a alguém.

É, com efeito, um reducionismo vexaminoso transformar a experiência da leitura em alguma tabela com um certo número de páginas a serem lidas em tanto tempo. Assim como tantos outros; subdividimos a percepção humana, a condição humana e mesmo a ação humana em míseros pedaços não-informacionais, como se fosse certo assim fazer. Desintegra-se todo fenômeno em suas partes menores e espera-se, examinando cada singular efeito, ter noção plena do todo. Isso incomodaria-me menos se não fosse vigente em todo sistema de pensamento atual.

Enquanto isso sigo imaginando se a real face interior de cada pessoa é tão frágil quanto atualmente a faço.

janeiro 2, 2012

Lista de férias

Talvez como estrategema para me autodiscplinar, transcrevo minha lista de leitura para as férias – do final de dezembro até o início de março. Alguns curtos outros longos; a maioria leituras novas e alguns livros em inglês.

- Dostoiévski. Notas do Subsolo

- Górki. Pequeno-burgueses

- Dostoiévski. Crime e Castigo

- A. Miller. O drama da criança bem-dotada

- Russell. Introdução à filosofia matemática

- Kafka. Essencial

- Orwell. Animal Farm

- Rubem Fonseca. Agosto

- F. Scott Fitzgerald. The Great Gatsby

- Conrad. Heart of Darkness

- Buchan. The 39 Steps

- Graciliano Ramos. Angústia

- Balzac. Mulher de trinta anos

- Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo

- Fukuyama. Ficando para trás

- Borges, Jorge Luis. As Ficções

novembro 4, 2011

Sobre o Estilo

A velocidade, a maior das belezas de Marinetti, obriga-nos a fazer tudo apressadamente. Temos pressa e falta tempo a tudo; não seria estranho, nesse contexto, que se tornassem comuns as generalizações rápidas, baseadas em informações incompletas. Os textos, em geral, quando são lidos, comumente são julgados pelas primeiras páginas. Isso até não está totalmente errado; como o autor lida com as primeiras páginas de sua obra em muito revelam sobre como ela será encaminhada. Seu estilo, sua maneira de transmitir seus pensamentos serão constantes até o final da obra – ou pelo menos assim esperamos. É, portanto, seguro dizer que se não lhe foi de agrado algum as primeiras linhas de certo autor, também não serão as outras que as seguirem.

Schopenhauer, em Parega e Paralipomena, comenta desta distinção da literatura: a partir do estilo é possível saber como o autor pensa. Todavia, é outra asserção dele que aqui interessa. “O estilo é a fisionomia do espírito. E ela é menos enganosa do que a do corpo. Imitar o estilo alheio significa usar uma máscara. Por mais bela que esta seja, torna-se pouco depois insípida e insuportável porque não tem vida, de modo que mesmo o rosto vivo mais feio é melhor do que ela.” Esta ideia central é essencial. Pois, nada mais comum do que escritores imitando outros; ou melhor, escritores ainda iniciantes tentando imitar algum gênio literário. Com efeito, todo escritor diletante está acorrentado a algum grande escritor. Quem já o vivenciou sem dúvida terá mais facilidade em assimilar esta ideia. Quando depois de um ou dois livros do Saramago, passa-se a escrever frases longas, intrincadas, com um narrador participativo um tanto irônico, etc.

Um dos grandes problemas é não compreender que o estilo, mais do que a voz do autor (ou dos personagens, agora que estamos falando de romances). Há uma função específica para aquela voz. Graciliano Ramos faz o deleite dos leitores que buscam estruturas complexas. Mas não o faz em seus romances, somente em seus ensaios. A primeira pessoa, tanto empregada por ele, obriga-o a se transpor da posição de autor para a personagem que ele cria. Paulo Honório ganha vida justamente por seu estilo de escrita e fala. Em verdade, todo o romance, por estar em conformidade com o estilo, passa a ser mais real – o estilo tem propósito e serve à obra. Grandes autores não escrevem como escrevem por mero acaso. Há uma intenção na forma como dispõem as palavras.

outubro 24, 2011

A Casa Velha

Hoje vi uma casa gozada. Se fosse Monteiro Lobato, escreveria que era um casarão assobradado, que o muramento erguia-se em alicerces, mas não sou. A casa era velha e da rua se protegia com uma grade. Havia pontas nas extremidades delas; a grade, que também era velha, ficava meio inclinada em direção a rua, parecendo que ia desabar. Fosse de ferro como parecia ser poderia causar um bom estrago. Mas as pessoas continuavam passando ali por baixo. Umas, curioso, se afastavam tanto que se metiam na rua – não percebiam o perigo que era os carros. Não entendo o porquê de nenhum dos dois, mas talvez o ser humano seja assim mesmo.

outubro 23, 2011

Textos e Estilos

Há um ponto na vida literária de cada um em que se é defrontado com a questão do estilo. Isto, claro, não pressupõe que o escritor em questão esteja perante seu primeiro livro ou mesmo diante de algo importante – é até mais provável que o primeiro enfrentamento consciente surja durante uma redação rotineira ou mesmo durante um pequeno texto explicativo para os amigos. A grande questão do estilo é que ele apenas vem com o tempo. Não existem caminhos mais breves até ele; ler obsessivamente, ver filmes, escutar Mozart, fumar ou usar drogas de nada servirão – sinto muito amigo pseudocult. É claro que ler boa literatura e escutar boa música em muito ajuda na formação intelectual. O erro, como se verá ao final, está em exigir demasiado de si mesmo.

Os atalhos, ao longo da maturação da própria vida, rondam todo o processo artístico. Não faltará alguém a creditar todo o brilhantismo de um artista nas drogas que ele usa ou já fez uso, assim como sempre haverá alguém a encontrar semelhanças de hábito entre grandes artistas. Alguns grandes artistas sem dúvida abusaram de entorpecentes – muito antes dos famigerados anos sessenta. Miles Davis usou heroína, Baudelaire, ópio e os Beatles, muito LSD. Mas sabe quem também já usou? Inúmeros pacientes em clínicas de reabilitação pelo mundo. Faz pouco ou nenhum sentido imaginar que a formação artística venha fundamentalmente pelo uso de algum químico. Davis parou com a heroína, Baudelaire com o ópio (e as outras drogas) e os Beatles talvez tenham feito o mesmo – eu realmente não sei. Isso, contudo, foge a discussão. A questão é que um hábito tão pernicioso como o uso de químicos jamais teria o efeito milagroso que alguns imaginam. Seguindo essa linha de raciocínio, concluiríamos que tuberculose é também um sinal de genialidade – porque afinal todo mundo que valeu a pena ter existido morreu de tuberculose.

Esses pequenos auto-enganos podem, com efeito, destruir a vida de uma pessoa – como todos já estão cientes. Aí que entra o estilo. A grande marca de um escritor é a forma curiosa ou inovadora como ele escreve. Flaubert era frio, Hemingway era “simples” e Saramago “não usa pontuação”. E acredite, seu estilo é tudo o que importa; se seu estilo não for inovador, desafiante e profundo de nada terá adiantado sua existência no universo das letras. Então trate logo de escrever frases longuíssimas cheias de pausas e quebras; não retenha sua criatividade simplesmente porque as vírgulas e as orações têm alguns limites, liberte-se! Seja tão profuso e misterioso quanto puder porque o bom leitor apenas tem olhos para aquelas frases confusas e sem sentido.

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Amanhã eu escrevo um texto de verdade com alguns pensamentos sobre estilo. Estou cansado demais hoje e minha preguiça impede-me de não publicar o esforço de trinta minutos escrevendo.

outubro 9, 2011

Quebrando Tudo

Este é um texto antigo, escrito no início do ano. Encontrei ele e tentei dar alguma coerência aos fatos dele sem alterar muito as palavras empregadas.

Quebrando Tudo

            Fernando acordou na primeira luz da madrugada. Foi logo a mesa, sem o devido cuidado de manter taciturnos os passos, e pôs-se a preparar a batida de leite com complexos de carboidratos e proteínas de costume. Tia Magda estava agitada, ia e voltava numa dança infindável pela casa, arrumando seus pertences, ambos os pés enfaixados – apressando-se como podia em passinhos de pingüim. Passava maldizendo a filha “que está atrasando tudo!” e aproveitava para ainda palpitar sobre aquela batida, dizendo que “uma banana fatiada e gelo junto com isso fica uma delícia” – realmente fica uma delícia.

            O dia começara nublado; o céu anuviado, alvo que mal se podia olhar pela janela – rebrilhavam, no jardim, os carros, como se esperando a breve partida da tia e sua filha. Num ritmo moroso os que estavam nos quartos iam acordando; a porta abriu e Tatiane Azambuya, filha menor de um ex-casamento entre advogados, saiu, com uma expressão desditosa de quem fora acordada pelo barulho importuno da sala, do quarto das visitas. Não só a expressão do rosto como sua apresentação denunciava a festa de ontem; estava como se há anos conhecesse a família para ter a intimidade de estar tão desairosa. Voou indiferente à geladeira, agarrou um suco, serviu num copo, e engolfou tudo em três grandes goles; levou a mão à cabeça e já se podia dizer de lhe que não estava bem. Tatiane cruzou a sala, do mesmo jeito que fizera antes, e voltou ao quarto. Se realmente estivesse mal haveria de ser uma cólica, alguma dessas dores de mulheres como já ouvira alguém falar – uma ressaca era menos provável; já era passada a hora do champanhe reclamar a sua falta naquele esbelto corpo feminino.

            A porta voltou a se abrir e, entremeio a um longo bocejo, Ricardo, cabelos desarrumados – sequer penteados –, bradou seu bom dia. Sem grandes cerimônias, como dono da casa que era, sentou-se no sofá e fez soar as primeiras notas do Bolero de Ravel no violão. Em seguida, sua namorada, Ana Cellos, cinegrafista amadora recém formada, saiu do quarto, andou lentamente até seu lado e estirou-se recostando a cabeça nas almofadas, com o cuidado de pôr os pés à que não atrapalhasse o namorado. Ficou numa manha matutina remexendo os cabelos enquanto via a figura desarmoniosa mas singularmente bela dele – até pareceria, por um momento, que um desatento havia arremessado álcool na fogueira já estável e esta, violentamente reascendida, passara a abrasar o seu antes anêmico coração; carregava, ainda que sendo afetada pelo peculiarmente encantador feitio de Ricardo, um ar desditoso no rosto, meio desgostoso, como se algo lhe incomodasse profundamente.

            A casa, agora, parecia um agradável pandemônio com a tia Magda ainda agitando-se pela sala; a mãe de Ricardo, junto da empregada, preparando o café-da-manhã de todos; o pai de Ricardo, agachado, em frente ao notebook, investigando o curioso causo do fio, ligado à tevê, que insistia em fingir-se como falho; e Ênio Sãoricardo, amigo da família, junto da esposa, anunciando que iria comprar pão. Já nosso amigo, que terminou de tomar sua poção de varonilidade e macheza, sentou-se na poltrona, mantendo o olhar fixo, perdido em algo.

            Com um gesto sutil, Ana Cellos chamou-lhe – nosso amigo – ao alpendre da casa, que ficava em frente ao jardim. Por uns instantes apenas apreciaram o leve sopro vindo do mar – a leve aragem da manhã era refrescante e impunha um clima doce e agradável ao jardim –; e, quando tudo está, como diria o grandessíssimo filósofo Pangloss, de Voltaire, da melhor maneira possível e para o melhor fim (sempre) é bom logo suspeitar de que a realidade bestial do mundo está apenas como um gato preto espreitando-nos por trás, escuso dos olhares, esperando o momento preciso para de súbito nos atacar sem piedade. E ele veio. E veio da boca de Ana. “Tá, tem uma coisa muito estranha entre tu e o Ricardo. Tá muito na cara. Pode contar, eu não tenho preconceito.” E nesse mínimo lapso de tempo, o pequeno gigante que estava encarando ela deu alguns pestanejos rápidos e recostou-se melhor na cadeira. “Não precisa ter medo,” ela continuou, “é nada demais se tu já tiver transado ou ficado com ele ou alguma coisa assim.”. “Tipo, tu pode falar, não precisa ter medo…” ela repetia, como uma promotora certa da ilicitude do réu. “Como assim?” finalmente ele respondeu, “De onde tu tirou uma ideia dessas? Eu? Bicha? Logo eu?”. “Tá, olha, eu sei de tudo; se tu contar fica mais fácil”. Ele continuou na defensiva negando tudo. “Um segundo, já volto.” disse ela e entrou; pode vê-la abrindo a porta do corredor e entrando no quarto. Por três vezes hesitou, saindo, por fim, impaciente pelo portão da casa. Quando Ana Cellos finalmente voltara, com uma carta em mãos, pode provavelmente apenas ver ao longe o reluzir do carro, dobrando em direção à cidade.

setembro 12, 2011

Armandinho, o Poeta Moderno

Inspirado na análise crítica de meu amigo, @vitorlol_ entitulada: Sobre o porquê de Malha Funk ser uma obra-prima da música universal, decidi contribuir analisando a fundo outro marco musical brasileiro, do poeta Armandinho: Desenho de Deus. Tentarei abordar a obra tanto pelo viés intimista e particular como pela ótica social que os versos permitem.

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“Refrão: (2x)
Quando Deus te desenhou
Ele tava namorando
Quando Deus te desenhou
Ele tava namorando
Na beira do mar
Na beira do mar, do amor
Na beira do mar
Na beira do mar, do amor…”

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Salta aos olhos a repetição incessante usada pelo autor; ritmo e dinâmica da música são marcados por este recurso. Igualmente, a reaparição de palavras-chave nos indicam os temas que o autor irá abordar: “Deus”, “desenhou”, “namorando”, “beira do mar, do amor”. Deus e desenhar obviamente indicam-nos a concepção platônica do ser e da realidade – Platão afirmava a existência de arquétipos, eternos, que contém todas as possibilidades de existência no mundo real. Deus desenha (cria) seres e coisas a partir de seus arquétipos. Todavia, além disso, se repararmos na frase como um todo, podemos perceber que a descrição sucinta e poética refere-se a uma ação. É preciso encontrar a causa desta ação.

Deus, ser perfeito por definição, cria – a partir de um arquétipo platônico – um ser. É afirmado, também, sob que condição Ele se encontrava nesse instante: “[es]tava namorando”. O senso-comum nos dirá que a beleza estonteante da musa inspiradora de Armandinho era tamanha que ele só pode compará-la a uma obra de Deus. Isto de fato se comprova, pois, uma obra de Deus não seria feia tampouco imperfeita. Ou seja, Deus criou uma musa ideal. Mas por qual motivo? Ao passar do tempo, é aceitável dizer, a relação se altera; desejos insatisfeitos e pequenos incômodos tornam-se corriqueiros e a insatisfação geral fica cada vez mais patente. Em outras palavras, é correto afirmar que Deus estava insatisfeito com sua relação e, usando de seus poderes, criou um sucedâneo, uma “outra(o)”, para fugir de seus problemas.

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Após descrever a beleza e a voz da musa, o autor encerra a estrofe com:

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“Mas o que tem por dentro
Para mim tem mais valor..”

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Se a beleza externa, da musa criada por Deus, era máxima (perfeita) podemos apenas supor que o que haveria dentro dela seria ou igualmente máximo ou algo abstratamente superior ao máximo – seria, portanto, algo incompreensível à mente humana. Podemos ressaltar a irracionalidade do julgamento humano, preferindo algo não perfeito a algo perfeito – o julgamento irracional claramente se liga à crônica ineficiência do sistema judiciário brasileiro, o primeiro ataque social da obra. Porém, chegamos a um paradoxo e, neste ponto, seria válido retomar o tema anterior afim de mais cuidadosa apreciação: a insatisfação de Deus com sua relação. Como Deus estaria infeliz? Sendo dotado de perfeição é apenas compreensível conjecturar que o autor se vale de recursos poéticos para espelhar em Deus seu próprio descontentamento; ao imputar a tristeza e a frustração de um relacionamento falho ao ser máximo, o autor cria uma poderosa e eficaz hipérbole. A exaustiva repetição da letra (e, inclusive, de todos os elementos musicais) reforça a ideia da obsessividade do autor e põe ainda mais força à ideia central – ele está a tal ponto paralisado que nada mais consegue cantar.

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Do ponto de vista social já nos referimos à mordaz crítica ao direito e às leis. Não se contentando com pouco, em certo trecho encontramos, efetivamente, as tendências marxistas do autor:

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” Tirou a sua voz
Do própolis do mel

E o teu sorriso meigo
De algum lugar do céu”

obs: o autor é ousado ao quebrar com normas convencionais, concordando pessoas diferentes na mesma estrofe. “Sua” (3ª pessoa) é seguido de “teu” (2ª pessoa) ainda que se refira à mesma pessoa (a musa). 

Não resta mistério de que o trabalho da abelha – que produz o mel do qual provém o própolis – foi explorado. A abelha, com efeito, vendeu sua mais-valia, isto é, seu valor de trabalho por um salário de subsistência. Neste caso em particular, cabe ressaltar que os produtos iniciais eram apenas o mel e um sorriso. Tanto o primeiro como o último podem ser valorados por métodos contabilísticos, isto é, podemos usar técnicas para definir um valor de mercado para ambas. Todavia, o produto final, uma musa perfeita, tem valor máximo; em outras palavras, o trabalho das abelhas agregou valor infinito ao produto. Fica novamente evidente a monstruosa hipérbole que o artista cria: a sociedade, baseada em Deus, expropria valor infinito das abelhas, o proletariado. Deus, como viu-se em ambas as interpretações, não é um recurso gratuito e sim um perfeito exemplo do uso de hipérboles.

Conclusão:

Ainda que aparentemente inferior ao Malha Funk, Armandinho revela-se igualmente capaz de liderar importantes movimentos culturais no cenário musical brasileiro. Com efeito, Desenho de Deus se sustenta como uma das grandes produções musicais e inclusive literárias do povo brasileiro.

setembro 4, 2011

Dilema

Um breve pensamento para romper com os poemas e tornar a serem escritos os textos.

* * *

“Em verdade, a escrita de um texto para a internet envolve alguns dilemas e problemas atuais da escrita. Ler numa tela de computador é desconfortável, ler algo que não é engraçado ou curto é ainda mais desgastante. Como se assuntos, que em papel impresso seriam cativantes, tornassem-se enfadonhos – ou falhassem em prender-nos a atenção – a maioria dos textos em blogs é humorístico. Se por acaso há artigos, textos científicos ou livros é antes para que possam ser impressos do que para que sejam lidos online. Optar entre um texto convidativo e, como entendo, apropriado para a internet parece-me mais sensato.”

Este sou eu citando a mim mesmo.

julho 29, 2011

b≠a

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