Quebrando Tudo
Este é um texto antigo, escrito no início do ano. Encontrei ele e tentei dar alguma coerência aos fatos dele sem alterar muito as palavras empregadas.
Quebrando Tudo
Fernando acordou na primeira luz da madrugada. Foi logo a mesa, sem o devido cuidado de manter taciturnos os passos, e pôs-se a preparar a batida de leite com complexos de carboidratos e proteínas de costume. Tia Magda estava agitada, ia e voltava numa dança infindável pela casa, arrumando seus pertences, ambos os pés enfaixados – apressando-se como podia em passinhos de pingüim. Passava maldizendo a filha “que está atrasando tudo!” e aproveitava para ainda palpitar sobre aquela batida, dizendo que “uma banana fatiada e gelo junto com isso fica uma delícia” – realmente fica uma delícia.
O dia começara nublado; o céu anuviado, alvo que mal se podia olhar pela janela – rebrilhavam, no jardim, os carros, como se esperando a breve partida da tia e sua filha. Num ritmo moroso os que estavam nos quartos iam acordando; a porta abriu e Tatiane Azambuya, filha menor de um ex-casamento entre advogados, saiu, com uma expressão desditosa de quem fora acordada pelo barulho importuno da sala, do quarto das visitas. Não só a expressão do rosto como sua apresentação denunciava a festa de ontem; estava como se há anos conhecesse a família para ter a intimidade de estar tão desairosa. Voou indiferente à geladeira, agarrou um suco, serviu num copo, e engolfou tudo em três grandes goles; levou a mão à cabeça e já se podia dizer de lhe que não estava bem. Tatiane cruzou a sala, do mesmo jeito que fizera antes, e voltou ao quarto. Se realmente estivesse mal haveria de ser uma cólica, alguma dessas dores de mulheres como já ouvira alguém falar – uma ressaca era menos provável; já era passada a hora do champanhe reclamar a sua falta naquele esbelto corpo feminino.
A porta voltou a se abrir e, entremeio a um longo bocejo, Ricardo, cabelos desarrumados – sequer penteados –, bradou seu bom dia. Sem grandes cerimônias, como dono da casa que era, sentou-se no sofá e fez soar as primeiras notas do Bolero de Ravel no violão. Em seguida, sua namorada, Ana Cellos, cinegrafista amadora recém formada, saiu do quarto, andou lentamente até seu lado e estirou-se recostando a cabeça nas almofadas, com o cuidado de pôr os pés à que não atrapalhasse o namorado. Ficou numa manha matutina remexendo os cabelos enquanto via a figura desarmoniosa mas singularmente bela dele – até pareceria, por um momento, que um desatento havia arremessado álcool na fogueira já estável e esta, violentamente reascendida, passara a abrasar o seu antes anêmico coração; carregava, ainda que sendo afetada pelo peculiarmente encantador feitio de Ricardo, um ar desditoso no rosto, meio desgostoso, como se algo lhe incomodasse profundamente.
A casa, agora, parecia um agradável pandemônio com a tia Magda ainda agitando-se pela sala; a mãe de Ricardo, junto da empregada, preparando o café-da-manhã de todos; o pai de Ricardo, agachado, em frente ao notebook, investigando o curioso causo do fio, ligado à tevê, que insistia em fingir-se como falho; e Ênio Sãoricardo, amigo da família, junto da esposa, anunciando que iria comprar pão. Já nosso amigo, que terminou de tomar sua poção de varonilidade e macheza, sentou-se na poltrona, mantendo o olhar fixo, perdido em algo.
Com um gesto sutil, Ana Cellos chamou-lhe – nosso amigo – ao alpendre da casa, que ficava em frente ao jardim. Por uns instantes apenas apreciaram o leve sopro vindo do mar – a leve aragem da manhã era refrescante e impunha um clima doce e agradável ao jardim –; e, quando tudo está, como diria o grandessíssimo filósofo Pangloss, de Voltaire, da melhor maneira possível e para o melhor fim (sempre) é bom logo suspeitar de que a realidade bestial do mundo está apenas como um gato preto espreitando-nos por trás, escuso dos olhares, esperando o momento preciso para de súbito nos atacar sem piedade. E ele veio. E veio da boca de Ana. “Tá, tem uma coisa muito estranha entre tu e o Ricardo. Tá muito na cara. Pode contar, eu não tenho preconceito.” E nesse mínimo lapso de tempo, o pequeno gigante que estava encarando ela deu alguns pestanejos rápidos e recostou-se melhor na cadeira. “Não precisa ter medo,” ela continuou, “é nada demais se tu já tiver transado ou ficado com ele ou alguma coisa assim.”. “Tipo, tu pode falar, não precisa ter medo…” ela repetia, como uma promotora certa da ilicitude do réu. “Como assim?” finalmente ele respondeu, “De onde tu tirou uma ideia dessas? Eu? Bicha? Logo eu?”. “Tá, olha, eu sei de tudo; se tu contar fica mais fácil”. Ele continuou na defensiva negando tudo. “Um segundo, já volto.” disse ela e entrou; pode vê-la abrindo a porta do corredor e entrando no quarto. Por três vezes hesitou, saindo, por fim, impaciente pelo portão da casa. Quando Ana Cellos finalmente voltara, com uma carta em mãos, pode provavelmente apenas ver ao longe o reluzir do carro, dobrando em direção à cidade.