Textos e Estilos
Há um ponto na vida literária de cada um em que se é defrontado com a questão do estilo. Isto, claro, não pressupõe que o escritor em questão esteja perante seu primeiro livro ou mesmo diante de algo importante – é até mais provável que o primeiro enfrentamento consciente surja durante uma redação rotineira ou mesmo durante um pequeno texto explicativo para os amigos. A grande questão do estilo é que ele apenas vem com o tempo. Não existem caminhos mais breves até ele; ler obsessivamente, ver filmes, escutar Mozart, fumar ou usar drogas de nada servirão – sinto muito amigo pseudocult. É claro que ler boa literatura e escutar boa música em muito ajuda na formação intelectual. O erro, como se verá ao final, está em exigir demasiado de si mesmo.
Os atalhos, ao longo da maturação da própria vida, rondam todo o processo artístico. Não faltará alguém a creditar todo o brilhantismo de um artista nas drogas que ele usa ou já fez uso, assim como sempre haverá alguém a encontrar semelhanças de hábito entre grandes artistas. Alguns grandes artistas sem dúvida abusaram de entorpecentes – muito antes dos famigerados anos sessenta. Miles Davis usou heroína, Baudelaire, ópio e os Beatles, muito LSD. Mas sabe quem também já usou? Inúmeros pacientes em clínicas de reabilitação pelo mundo. Faz pouco ou nenhum sentido imaginar que a formação artística venha fundamentalmente pelo uso de algum químico. Davis parou com a heroína, Baudelaire com o ópio (e as outras drogas) e os Beatles talvez tenham feito o mesmo – eu realmente não sei. Isso, contudo, foge a discussão. A questão é que um hábito tão pernicioso como o uso de químicos jamais teria o efeito milagroso que alguns imaginam. Seguindo essa linha de raciocínio, concluiríamos que tuberculose é também um sinal de genialidade – porque afinal todo mundo que valeu a pena ter existido morreu de tuberculose.
Esses pequenos auto-enganos podem, com efeito, destruir a vida de uma pessoa – como todos já estão cientes. Aí que entra o estilo. A grande marca de um escritor é a forma curiosa ou inovadora como ele escreve. Flaubert era frio, Hemingway era “simples” e Saramago “não usa pontuação”. E acredite, seu estilo é tudo o que importa; se seu estilo não for inovador, desafiante e profundo de nada terá adiantado sua existência no universo das letras. Então trate logo de escrever frases longuíssimas cheias de pausas e quebras; não retenha sua criatividade simplesmente porque as vírgulas e as orações têm alguns limites, liberte-se! Seja tão profuso e misterioso quanto puder porque o bom leitor apenas tem olhos para aquelas frases confusas e sem sentido.
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Amanhã eu escrevo um texto de verdade com alguns pensamentos sobre estilo. Estou cansado demais hoje e minha preguiça impede-me de não publicar o esforço de trinta minutos escrevendo.