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2013 em livros

Começado o ano novo, é-nos sempre tentador, sobretudo pela abundância de listas pela internet, recapitular o ano velho em livros, filmes, eventos, etc. sem perder a oportunidade de ranqueá-los.

Nota importante: não vou fazer aqui uma análise muito cuidadosa, então minha adjetivação por vezes vai parecer ríspida ou simplista demais.

Para começar 2013 preciso voltar a um dos últimos livros que li em 2012. Na noite de natal ganhei e li um pequeno livro de contos – sobre coincidências que beiram o absurdo – de Paul Auster, O Caderno Vermelho (The Red Notebook, no original). Uma leitura leve e prazerosa a que se seguiu um livro de Assis Brasil, Figura na Sombra, livro muito bem escrito sobre a vida de Aimé Bonpland, botânico francês que vem às Américas para estudar a fauna e a flora e acaba por se assentar no Rio Grande do Sul.

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    O Caderno Vermelho, além de usufruir de certo sucesso entre alguns colegas meus de faculdade, instigou-me a buscar por mais livros de Paul Auster. Assim, fui levado ao relativamente decepcionante Man in the Dark, que me pareceu um livro pobre, seco e de quase nenhum brilho. Antes do começo das aulas ainda consegui ler: Ficando para trás, livro sobre desenvolvimento que se debruça sobre o atraso econômico das Américas Central e Sul; Suave é a Noite de F. Scott Fitzgerald. Além desses, também li Khadji-Murát de Tolstói, um livro fenomenal – recomendação de um antigo professor de literatura. Por último, ganhei de presente da minha querida Alessandra o Intermitências da Morte do Saramago. Estes dois últimos foram sem dúvida os melhores livros do meu começo de ano.

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    Durante o primeiro semestre de 2013, após algumas leituras não literárias como os chatíssimos Super Freakonomics e Queit: the power of introverts in a world that can’t stop speaking, dediquei-me a leitura de contos. Estava fazendo uma oficina de criação literária com ênfase no gênero conto. Por conta disso reli o ótimo Lúcia McCartney do Rubem Fonseca; li alguns contos de Clarice, Edgar Allan Poe, Drummond, Sérgio Faraco (dale Porto Alegre), Tchékhov (dois livros da L&PM que sumiram por infortúnio) e Lygia Fagundes Telles (inclusive A Estrutura da Bolha de Sabão). No meio disso ainda conseguir reler o soberbo Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, além de alguns outros trabalhos dele.

    Meu segundo semestre, ao contrário do primeiro, foi um apagão literário. Acho que depois de junho só fui ler um livro dias após o meu aniversário, dia quinze de novembro. Ganhei de presente uma graphic novel brasileira Daytripper, Gente Pobre – primeiro livro de Dostoiévski – e um coletânea de poesias do meu chará Vinícius de Moraes – todos presentes da Alessandra. Terminei o ano lendo bastante poesia, especialmente Fernando Pessoa e Drummond. O natal novamente foi de uma agradável surpresa literária; no dia natal li inteiro Budapeste de Chico Buarque, um livro excelente, que foi ironicamente sucedido de uma decepção, Estorvo – do mesmo autor.

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Top 10 (em ordem alfabética)

Chico Buarque. Budapeste
Dostoiévski. Gente Pobre
Fernando Pessoa. O Eu Profundo, e os outros eus
João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severina
José Saramago. As Intermitências da Morte
L&PM. Seleçao de Contos do Tchékhov
Lygia Fagundes Telles. A Estrutura da Bolha de Sabão
Penguin Classics. Coletânea de Contos do Allan Poe
Rubem Fonseca. Lúcia McCartney

Tolstói. Khadji-Murát

I’m so sad

I’m so sad, I’m so sad,

I’m sad, I’m sad, I’m sad

I’m so sad, I’m so sad,

I’m sad, I’m sad, I’m sad

 

Don’t know what to do, don’t know what to do

Don’t know what to do

Revisitando a mim mesmo

Poucas vezes não será estranho o sentimento que se tem ao ler um texto de autoria própria, escrito há tempo suficiente para que já seja um estranho aquele que em certo momento já fomos. Reler uma redação antiga é voltar, por um instante, a ser o que se era; pois algo do fomos está ali gravado; uma forma de pensar, escrever, mesmo de sentir está de tal forma exposta que podemos quase que ser aquele antigo “eu”. Há quem pense que quando se lê Shakespeare se é, em parte, o próprio Shakespeare – mas isso deixemos para eles que assim o pensam.

Lendo meus antigos textos pude relembrar justamente o que lia e o que me fazia escrever. Relembrei como faziam pensar as paisagens da Patagônia, como embaraços tornavam-se em aventuras e como se desejava poder lhas estender. Sobretudo, ao interesse desse texto, relembrei de que lia Saramago. Fazia, há de se dizer, uma pequena maratona, tendo lido Ensaio Sobre a Cegueira logo após A Viagem do Elefante; e antes mesmo destes, não há muito tempo, havia lido O Homem Duplicado. Ficou-se evidente como o sol a anunciar o novo dia. As frases longas, entrecortadas, muitas vezes sobre assuntos pouco importantes para a “trama” em si. O pouco que fiz foi adaptar: as infinitas vírgulas foram forçadas a caber como dois-pontos, travessões e ponto-e-vírgulas. Em alguns momentos isso dificultou bastante a escrita e sacrificou a fluência do texto – ainda mais que tinha de escrever rápido os textos para que fossem um itinerário legítimo.

É curioso como se é tão influenciado pelo externo. Porque lia Saramago, passei a pensar, escrever, elaborar frases, passei a ser, em grau bastante humilde, Saramago. Se adaptei foi apenas a acalmar a consciência de não estar abertamente plagiando frases e ideias. De certa forma, tentei imitar o que seria o estilo de Saramago. E isso não me é novidade; tampouco imagino que seja a outros. Na época em que lia seus livros, como disse, pensava e escrevia com ele. O banal ganhava nova forma e mesmo textos simples tornavam-se alvo das peripécias de um estilo solto e elaborado.

É seguro dizer que toda pessoa, ou ao menos toda pessoa que escreve – de forma amadora -, é escrava de algum grande escritor. Por alguns meses todo texto que caísse em minhas mãos se tornaria num plágio infeliz do estilo saramaguês; assim como os meses seguintes seriam dominados por Flaubert e os seguintes por Henry James. A questão essencial do estilo é que ele tem propósito; isto é, a forma como se apresenta o que antes não existia serve às intenções do autor. O narrador de Flaubert não era gratuitamente frio e indolente – havia um porquê de assim o ser. O texto bem elaborado não se apresenta de forma inocente; a colocação das palavras ou o desleixo sintático, tudo tem uma razão de ser – são essenciais a transmitir as ideias do autor.

Quantificação

Acompanhar o progresso de leituras foi sempre tarefa ardilosa. É preciso muito mais do que contar o número de livros ou mesmo o de páginas lidas. Diferentes fontes, tamanhos de páginas e, sobretudo, de qualidade de leitura fazem da quantificação do progresso de leituras um desafio. Por mais que pense não chego a conclusão satisfatória: se leio pouco, mas bem, sinto que li insuficiente; de certa forma, é difícil desprender-se de imediato da necessidade de apresentar números grandes ao final de certo período de tempo. É como a vida acadêmica, que se preocupa com números e letras finais e não com o aprendizado.

Talvez seja algo tanto mais social do que próprio – de mim – estas questões. Chegar ao final das férias tendo lido dezesseis livros seria revigorante em dois sentidos. Primeiro seria auto-reforçador, após um péssimo segundo semestre de 2011. Em segundo lugar, amansaria alguma necessidade de provar algo a alguém.

É, com efeito, um reducionismo vexaminoso transformar a experiência da leitura em alguma tabela com um certo número de páginas a serem lidas em tanto tempo. Assim como tantos outros; subdividimos a percepção humana, a condição humana e mesmo a ação humana em míseros pedaços não-informacionais, como se fosse certo assim fazer. Desintegra-se todo fenômeno em suas partes menores e espera-se, examinando cada singular efeito, ter noção plena do todo. Isso incomodaria-me menos se não fosse vigente em todo sistema de pensamento atual.

Enquanto isso sigo imaginando se a real face interior de cada pessoa é tão frágil quanto atualmente a faço.

Lista de férias

Talvez como estrategema para me autodiscplinar, transcrevo minha lista de leitura para as férias – do final de dezembro até o início de março. Alguns curtos outros longos; a maioria leituras novas e alguns livros em inglês.

– Dostoiévski. Notas do Subsolo

– Górki. Pequeno-burgueses

– Dostoiévski. Crime e Castigo

– A. Miller. O drama da criança bem-dotada

– Russell. Introdução à filosofia matemática

– Kafka. Essencial

– Orwell. Animal Farm

– Rubem Fonseca. Agosto

– F. Scott Fitzgerald. The Great Gatsby

– Conrad. Heart of Darkness

– Buchan. The 39 Steps

– Graciliano Ramos. Angústia

– Balzac. Mulher de trinta anos

– Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo

– Fukuyama. Ficando para trás

– Borges, Jorge Luis. As Ficções

Sobre o Estilo

A velocidade, a maior das belezas de Marinetti, obriga-nos a fazer tudo apressadamente. Temos pressa e falta tempo a tudo; não seria estranho, nesse contexto, que se tornassem comuns as generalizações rápidas, baseadas em informações incompletas. Os textos, em geral, quando são lidos, comumente são julgados pelas primeiras páginas. Isso até não está totalmente errado; como o autor lida com as primeiras páginas de sua obra em muito revelam sobre como ela será encaminhada. Seu estilo, sua maneira de transmitir seus pensamentos serão constantes até o final da obra – ou pelo menos assim esperamos. É, portanto, seguro dizer que se não lhe foi de agrado algum as primeiras linhas de certo autor, também não serão as outras que as seguirem.

Schopenhauer, em Parega e Paralipomena, comenta desta distinção da literatura: a partir do estilo é possível saber como o autor pensa. Todavia, é outra asserção dele que aqui interessa. “O estilo é a fisionomia do espírito. E ela é menos enganosa do que a do corpo. Imitar o estilo alheio significa usar uma máscara. Por mais bela que esta seja, torna-se pouco depois insípida e insuportável porque não tem vida, de modo que mesmo o rosto vivo mais feio é melhor do que ela.” Esta ideia central é essencial. Pois, nada mais comum do que escritores imitando outros; ou melhor, escritores ainda iniciantes tentando imitar algum gênio literário. Com efeito, todo escritor diletante está acorrentado a algum grande escritor. Quem já o vivenciou sem dúvida terá mais facilidade em assimilar esta ideia. Quando depois de um ou dois livros do Saramago, passa-se a escrever frases longas, intrincadas, com um narrador participativo um tanto irônico, etc.

Um dos grandes problemas é não compreender que o estilo, mais do que a voz do autor (ou dos personagens, agora que estamos falando de romances). Há uma função específica para aquela voz. Graciliano Ramos faz o deleite dos leitores que buscam estruturas complexas. Mas não o faz em seus romances, somente em seus ensaios. A primeira pessoa, tanto empregada por ele, obriga-o a se transpor da posição de autor para a personagem que ele cria. Paulo Honório ganha vida justamente por seu estilo de escrita e fala. Em verdade, todo o romance, por estar em conformidade com o estilo, passa a ser mais real – o estilo tem propósito e serve à obra. Grandes autores não escrevem como escrevem por mero acaso. Há uma intenção na forma como dispõem as palavras.

A Casa Velha

Hoje vi uma casa gozada. Se fosse Monteiro Lobato, escreveria que era um casarão assobradado, que o muramento erguia-se em alicerces, mas não sou. A casa era velha e da rua se protegia com uma grade. Havia pontas nas extremidades delas; a grade, que também era velha, ficava meio inclinada em direção a rua, parecendo que ia desabar. Fosse de ferro como parecia ser poderia causar um bom estrago. Mas as pessoas continuavam passando ali por baixo. Umas, curioso, se afastavam tanto que se metiam na rua – não percebiam o perigo que era os carros. Não entendo o porquê de nenhum dos dois, mas talvez o ser humano seja assim mesmo.

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